Dra. Cláudia: força e sensibilidade na vida e na medicina

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A conversa para ouvir as histórias e opiniões da médica radioterapeuta Cláudia Tavares foi marcada no escritório do Grupo Luta Pela Vida. Ela chegou pontualmente e entrou na sala sorridente e elegante, como acontece de costume nos corredores do Hospital do Câncer. Num raro dia de folga, ela chegou sem o habitual jaleco, seu companheiro quase inseparável das jornadas de trabalho. A vestimenta branca que a acompanha durante boa parte do dia releva somente uma parte de uma mulher determinada e que busca equilibrar a força e a sensibilidade na vida e no dia a dia dos atendimentos no Hospital.

Já nos primeiros minutos de conversa a medicina surge como um assunto indispensável. Dedicada e estudiosa, Dra. Cláudia se formou na 27ª turma de medicina da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), tendo entrado na faculdade com apenas 17 anos. Antes do vestibular a dúvida ainda esteve entre os consultórios e a carreira diplomática, mas a medicina foi a escolhida, por sua opção e também por influência de seu pai, que sempre admirou a profissão. Ela fala com realismo e amor pela medicina. “É um curso duro, difícil, mas que me fez só crescer como pessoa e adquirir mais responsabilidade logo cedo”, afirma a médica nascida em terras uberlandenses.

O momento mais difícil durante a faculdade veio com a perda do pai ainda no segundo ano de graduação. A despedida a fez questionar se a profissão que havia escolhido era mesmo o seu destino. “Foi o pior momento da minha em relação com a medicina, em que eu fiz vários questionamentos, se era isso mesmo que eu queria fazer, se era um curso que não foi capaz de salvar o meu pai”, conta. Mas o grande apoio da mãe deu força para que a jovem estudante não deixasse a medicina. “Ela me deu o apoio necessário para seguir o meu caminho. Quando eu me formei eu disse a ela que o diploma deveria ser dela”, afirma.

No universo da medicina Dra. Cláudia viu na oncologia uma especialidade para crescer profissional e pessoalmente. A médica fala da área que atua há mais de 20 anos com brilho nos olhos, mas também como quem não esquece da sabedoria que os anos de trabalho trouxeram. “Eu sempre achei a oncologia uma área muito interessante e que hoje vive uma fase muito importante com o desenvolvimento de pesquisas da questão da biologia molecular, que vem evoluindo com questões como os marcadores tumorais. Eu sempre vi a oncologia como um assunto do futuro e isso me chamou a atenção’, diz.

A radioterapeuta acredita que no exercício da oncologia é preciso contar com a empatia dos profissionais para com os pacientes. “Eu sempre digo que é preciso exercitar nosso olhar solidário com a dor do outro. Temos que pensar que a gente um dia está com o jaleco branco, do lado de cá da mesa, e no outro dia nós podemos estar do outro lado sendo paciente”, alerta.

Se para algumas pessoas o pensamento é de que os médicos sejam frios e que o exercício da profissão os torne distantes da dor dos pacientes, Dra. Cláudia mostra que esse é um grande engano. “Dar o diagnóstico hoje, mesmo depois de mais de 20 anos de trabalho, ainda é muito difícil. O dia que eu perder a capacidade de chorar pelo sucesso do tratamento dos meus pacientes e também pelo insucesso, quando a doença me trai e deixa um paciente vir a óbito, então vou saber que chegou a hora de parar” diz, enfática, a médica.

Quanto mais o assunto vai adentrando sobre o dia a dia nos consultórios, mais Dra. Cláudia vai revelando sua relação com os pacientes e como cada um traz um ensinamento para ela. Em uma das histórias que dividiu na entrevista, ela conta sobre como é a experiência de olhar nos olhos de um paciente e dizer a ele que os recursos da medicina já não podem trazer a cura da doença.

O assunto que mais emociona a médica e traz à tona olhos marejados, é quando Dra. Cláudia conta da função que exerce a cerca de 10 anos, como radioterapeuta pediátrica no Hospital do Câncer. A médica conta que foi eleita na época pela equipe e que a princípio não se imaginava na função. “Eu não almejava e nem me imaginava tratando crianças. Confesso que é sempre muito difícil tratar crianças na radioterapia, mas em contrapartida se você me perguntar eu não tenho coragem de largar. Apesar de pesado é muito gratificante”. Para a médica o contato com os pequenos pacientes é uma forma de se renovar. “Aquele contato com a criança é um momento que sou mais leve, que consigo rir, consigo brincar com ela apesar do sofrimento. É com eles que vejo como mesmo nos momentos de dor e dificuldade o ser humano ainda consegue conservar a inocência. O que elas me ensinam é que sempre é possível tornar tudo mais leve. Acredito que esse seja o grande ensinamento que elas me trouxeram. Eu consigo continuar a ter certeza que vale a pena fazer o que eu faço. Que é da vida, que as vezes vou perder, mas outras tantas eu vou ganhar”, afirma.

A MULHER NA VISÃO DE DRA. CLÁUDIA

Para traçar toda essa trajetória pessoal e profissional, Dra. Cláudia teve no universo feminino muito apoio e exemplos. Quando perguntada quais mulheres são sua inspiração, a médica não hesita em dizer os nomes de sua mãe e de sua avó materna.

Dra. Cláudia acredita que a sensibilidade feminina atue para que seu trabalho aconteça. Para ela esse olhar mais ‘carinhoso’ e forte como encara a vida venha dos ensinamentos de duas grandes referências. “Minha mãe foi um exemplo para mim, como mulher, mãe e esposa. Ela sempre foi muito dedicada à família e muito forte para superar as adversidades da vida”, conta. Como a personalidade forte é uma marca da médica, uma figura feminina que considera emblemática é de Margareth Thatcher, eleita em 1979 a primeira mulher a ser primeira-ministra do Reino Unido, governando até 1990, e que ganhou o apelido de “Dama de Ferro” por sua postura firme de liderança.

Para Dra. Cláudia, a mulher tem cada vez mais ocupado o espaço que tem direito. “Vejo que a mulher realmente tem conquistando o espaço que ela merece, com o trabalho e a vida que ela escolhe. Eu acho que o espaço dela não tem que ser na frente ou atrás do homem, o que ela tem que buscar é um espaço ao lado do homem. O reconhecimento de que ao lado do homem os dois podem construir um mundo melhor e tomar as decisões mais acertadas, caminhando lado ao lado, se respeitando e buscando o equilíbrio”, finaliza.

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