Janeiro Branco: A saúde mental do paciente oncológico

“Quando a gente recebe o diagnóstico de câncer, a primeira coisa que escutamos é algo parecido com uma sentença de morte”, conta Flávia Rezende, paciente que trata um câncer de mama no Hospital do Câncer em Uberlândia. Para Viviane, outra paciente da instituição, ela não só relatou a mesma angústia de Flávia como também afirma que “nesse momento, a gente pensa que nosso caso é o pior”. Depoimentos semelhantes aos de Flávia e Viviane não são situações isoladas. A saúde mental do paciente oncológico é testada diariamente diante de um diagnóstico inesperado e ainda estigmatizado pela sociedade. 

A campanha Janeiro Branco, como o nome já sugere, acontece todo início de ano e aproveita sentimentos positivos gerados no período, como a expectativa e esperança, e o costume de traçar metas para o novo ciclo, para discutir sobre saúde mental e como o bem-estar psicológico é importante para a saúde do corpo. Para o paciente oncológico, essa discussão se torna fundamental, uma vez que o apoio psicológico e o entendimento de suas emoções e sensações durante o tratamento são partes importantes do processo. 

Para a psicóloga Elina Faria, que atua no setor de Cuidados Paliativos do Hospital do Câncer em Uberlândia, o primeiro passo para falar sobre saúde mental do paciente oncológico é desestigmatizar o câncer, algo que deve ser feito, na opinião dela, com informações didáticas e de forma processual e transgeracional. “Após o diagnóstico, muitos pacientes possuem essa narrativa de sensação de morte motivada por uma questão cultural. Antigamente, as pessoas que eram acometidas pelo câncer, descobriam a doença tardiamente e não existia um acesso ao tratamento. Hoje já não é mais assim”, explica a psicóloga. Elina também entende que essa desestigmatização é feita a longo prazo, “É um processo transgeracional, ou seja, hoje as pessoas estão menos preconceituosas do que as gerações passadas”.  

No processo que ainda trava pela sua vida dentro do Hospital do Câncer, Flávia conta que muito mais do que apoio de amigos e família, “o paciente que está em tratamento precisa de ser entendido”. “Muitas vezes, a família e a sociedade cobram que o paciente oncológico supere a dor. Ao contrário disso, o paciente precisa digerir todas as sensações que ele sente depois da notícia”, esclarece Elina, “é normal sentir tristeza, raiva… São reações esperadas diante de uma situação de tratamento. Por isso que o apoio psicológico também é estendido a família do paciente. Eles vivem todas as fases de sentimentos e precisam entender melhor o que sentem para apoiar seu familiar que está doente”. 

Elina explica que, para o paciente oncológico, a aceitação da sua doença é a última etapa. “Do ponto de vista da psicologia, a aceitação consiste em você compreender os sentimentos desenvolvidos diante de uma situação, respeitá-los e dizer ‘tá tudo bem’. Porém, antes disso, o paciente precisa descobrir, junto com ajuda de profissionais, os recursos emocionais disponíveis para lidar com tudo isso”, conta. 

Dentro do Hospital do Câncer em Uberlândia, tanto o paciente, quanto o seu médico oncologista podem solicitar o apoio psicológico em qualquer fase do tratamento. Elina enfatiza que respeitar o processo de identificar os sentimentos e buscar a aceitação da doença é uma boa forma de conversar sobre saúde mental do paciente oncológico. 

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