Valda Barreiro: uma mulher dona de seu destino

Compartilhe:

Se falarmos que a entrevistada do dia é com uma senhora do alto de seus 68 anos muitas pessoas vão imaginar em um primeiro momento tratar-se de uma típica senhorinha, sentada em sua cadeira de balanço, atarefada com o novo tricô para os netinhos. Entretanto, em nada essa visão corresponde à Valda Barreiro. Com uma história cheia de luta e muita perseverança para vencer as adversidades para estudar, trabalhar e conquistar seu espaço, Valda mostra que foi e é dona de seu próprio destino, tendo traçado o seu caminho como quis.

Valda mescla a doçura que vem dos belos olhos azuis com a sabedoria de quem já exerceu os mais diferentes papéis que uma mulher pode alcançar: filha, mãe, esposa, profissional e atualmente voluntária no Hospital do Câncer em Uberlândia.

Valda é uma ribeirão pretana nascida em 1949, caçula da uma família de oito filhos em que as rédeas curtas mantidas pela figura paterna conduziam a vida de todos. A família tinha um pequeno armazém na cidade, no qual todos os filhos ajudavam de alguma forma. Valda era a única filha que além de cuidar dos afazeres internos no mercadinho ainda fazia entregas das encomendas dos clientes pela cidade.

Mas a vida pacata de dona de casa e ajudante do pai no armazém da família não era o destino que Valda buscava. Ela queria mais. Por qual caminho seguir então? Como transpor o autoritarismo do pai? Aos 15 anos, depois de ficar um ano reclusa em seu quarto após ter contraído tuberculose do pai que havia sido cuidadora, Valda entendeu que o seu caminho seria dos estudos. “Naquele tempo eu não tinha TV, não tinha dinheiro para comprar livros, então o que me restava era pensar. Decidi então que queria mais para mim, por isso decidi estudar”, conta.

Na família todos os filhos estudaram para serem técnicos em contabilidade, mas enquanto os homens tinham um pouco mais de liberdade as mulheres, apesar de estudar, continuaram somente nos afazeres do armazém e de casa. “Eu convenci meu pai na época a me deixar fazer uma adaptação para o antigo Normal e ser professora” relembra.
O caminho dos estudos de Valda mudou quando uma prima de Araçatuba ficou hospedada em sua casa para fazer cursinho e entrar na faculdade de psicologia da USP. “Minha prima estudava o dia todo, enquanto eu ficava trabalhando no armazém. A noite meu pai me obrigava a estudar com ela para que ela se dedicasse mais. Foi aí que eu combinei com a minha prima que eu ajudaria a passar e no próximo ano ela me ajudava a convencer meu pai a me deixar estudar”, conta.

O plano dos estudos seguiu e na data de fazer o vestibular o pai de Valda a obrigou a se inscrever também só para ajudar a prima a se deslocar por Ribeirão. Foi nesse momento que o destino pregou uma peça e na verdade quem passou no vestibular para Psicologia foi a própria Valda e não sua prima. “Tive que fazer uma reunião com todos os irmãos e o meu pai para comunicar que eu tinha passado e que tinha que dar um jeito de fazer o curso”, relembra. A condição dada pelo pai foi que ela poderia estudar, mas que aos finais de semana deveria continuar a fazer todas as entregas do armazém.

Valda então se dividiu entre os estudos e as entregas das encomendas dos clientes e não desistiu do seu objetivo. Ela conta que foram muitas as noites em que passava a madrugada estudando a base de café. As dificuldades financeiras também eram enormes, mas Valda se virava como podia. “Me lembro que eu datilografava todas as apostilas do curso para poder ganhar minha cópia de graça e poder estudar”.

Em 1975 a jovem Valda conseguiu o tão sonhado diploma como psicóloga pela USP (Universidade de São Paulo). Era hora de alçar outros voos e a recém-formada acabou vindo parar em Uberlândia para repor o lugar da única psicóloga do município. Mas ainda era pouco e no ano seguinte ela decidiu prestar o mestrado na UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), passando para a 1ª turma a linha de educação.

Com o mestrado ela realizou também outro sonho: ter o próprio carro. Mas não era qualquer carro e sim o seu ‘galante’, apelido que deu para seu veículo azul piscina. “Quando eu pensava de onde eu tinha saído e que eu estava ali, dirigindo o meu próprio carro, comprado com o meu dinheiro, fazendo o mestrado dos meus sonhos eu vi que eu podia tudo”, afirma. Valda ainda fez doutorado, mas acabou não defendendo sua tese. Na vida acadêmica fez carreira no curso e Psicologia e Pedagogia da UFU (Universidade Federal de Uberlândia).

Na vida pessoal Valda também construiu seu caminho. Se casou, se separou e criou três filhas, sendo uma delas adotiva. “Para mim minhas filhas são as maiores preciosidades da minha vida. Eu faço tudo por elas, mas também nunca cerceei nenhuma decisão delas”, afirma Valda, que sempre buscou dar uma educação com responsabilidade e consciência para as filhas. Na ocasião em que optou pela adoção da caçula, Valda diz que trabalhou muito com as filhas o amor e aceitação. “Quando decidimos adotar eu falei para elas: se é adoção, não vamos escolher, pode vir homem, mulher, branco, negro ou deficiente que vamos amar. No dia que levei a Mariana para casa, cheguei e encontrei várias faixas feitas por elas de papel higiênico com as boas-vindas para a irmã”, relata Valda.

Hoje um dos papéis que Valda exerce e que ocupa o seu coração e tempo é como voluntária do Grupo Luta Pela Vida no Hospital do Câncer. Seu primeiro contato veio com a equipe de Cuidados Paliativos, tendo começado em 2011 sua trajetória. “Depois que me aposentei nunca mais parei aqui no Hospital”, relata. Como voluntária Valda também já trabalhou com as crianças na Brinquedoteca. Em todos os momentos a dedicação e o carinho da voluntária são garantia nos corredores do Hospital. “Aqui eu nunca tive tanta paz na minha vida. Eu não consigo imaginar que alguém pode ter a felicidade plena sem ajudar o próximo”, conclui.

A MULHER NA VISÃO DE VALDA
Com tanta personalidade e força para alcançar seus sonhos, Valda tem opiniões e referências femininas especiais que seguiu e segue até hoje. Com sua caminhada solidária, a primeira mulher que busca seguir como modelo é a Madre Teresa de Calcutá. “Para mim ela é um grande exemplo a ser seguido. Ela fez coisas incríveis e possíveis. Acho que sempre devemos nos espelhar em grandes pessoas para tentarmos chegar um pouco ao que elas fizeram”, diz. Além da religiosa, Valda ainda menciona a figura de Cora Coralina como outra grande mulher. Já no âmbito pessoal ela considera sua orientadora sua referência. “Ela foi uma mãezona para mim. Me acolheu, me ajudou e me ensinou a forma justa da relação aluno e professor”, relata.

Quando o assunto é o perfil e o papel da mulher na atualidade, Valda embasa sua opinião em como a educação de gênero é passada. “Eu acredito que o problema está na educação em que as mulheres ainda educam a filha para ter um marido enquanto o filho é educado para não ser enganado pela filha de ninguém. A mulher tem que ser boa independente dessas amarras. Se quero igualdade, que ela se estabeleça na base. Se nós queremos igualdade ela precisa vir nos direitos e deveres”, conclui.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *